Algumas linhas para uma biografia

Nasci em Almada, em 1972. Tenho uma família feliz e uma profissão na qual sou bem-sucedido. Para mim, a escrita não é uma profissão nem uma doença mas antes algo que faço quando posso e que serve unicamente para me dar prazer.

Escrevo desde a adolescência e, ao longo de todos estes anos, já tive fases de escrever muito e fases de nada escrever. Mais que uma vez, destruí tudo o que escrevi mas, de todas as vezes, voltei a escrever ainda mais e ainda melhor. Como em tudo, já aprendi que o que não nos mata, torna-nos sempre mais fortes e com isto, aprendi a transformar em vitórias todas as minhas derrotas.

Ao nível de temas de escrita, posso ver duas grandes áreas: a ficção e a escrita infantil. Na ficção, fascinam-me as pessoas, as suas lutas pela felicidade ou a sua eterna desilusão. Penso que, se fosse possível reduzir toda a epopeia humana a pequenos objectivos, no topo da lista estariam objectivos como conseguir e manter o amor, encontrar a felicidade, erradicar a solidão. Observo tudo e todos à minha volta e escrevo sobre essas histórias que imagino num olhar, numa palavra, num gesto, numa lágrima.

Escrever para crianças é outra coisa completamente diferente. Vejo demasiados livros infantis impregnados de morais estupidificantes. Talvez porque os adultos que os escrevem achem que as crianças são parvas e portanto qualquer coisa serve. Eu acredito que escrever para crianças é ainda mais difícil que escrever para adultos. As crianças gostam de histórias que as divirtam e às quais possam sobrepor a sua própria imaginação, desmultiplicar uma história em várias histórias, em suma, divertirem-se. É isso que procuro na escrita infantil: divertir, dar asas à imaginação, brincar com o impossível. Tento deixar de fora as pretensas moralidades, paternalismos e o tédio profundo que tantos livros supostamente infantis me fazem sentir.

Apesar de já ter algumas histórias publicadas, continuo sem editora. Já houve tempos em que queria muito ter uma editora e publicar regularmente. Contudo, hoje em dia não penso que publicar me seja importante. O que me interessa é escrever, o resto é secundário. Esta convicção, assim como o facto de não depender da escrita para viver, liberta-me dos tristes ciclos de vassalagem e capelinhas que tanto grassam no mundo literário, um mundo em que os jogos de bastidores é que determinam quem é publicado e quem não é, um mundo em que a maioria das editoras procura o dinheiro fácil nos livros que são suficientemente escandalosos para vender ou em que os autores são suficientemente mediáticos para esgotar tiragens. Eu não pertenço a esse mundo nem me presto a essas coisas.

Para terminar esta curta nota autobiográfica, resta-me acrescentar que sou quase todos os dias feliz.