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Nasci em 1972, em Almada. Apesar de ainda recordar o sabor das fatias douradas do café Tropical ou o quase silêncio dos jardins do Seminário, vivi sempre na cidade, onde o tempo corre por nós demasiado rápido, onde todos os olhares que se cruzam com o nosso estão sempre além, um pouco mais longe, apenas à distância suficiente para se tornarem um mistério indecifrável, um segredo fechado na sua própria urgência.
Agora já não vivo em Almada. Agora já não como fatias douradas. Na verdade, agora já quase me habituei à brevidade dos dias. Aprendi até que o tempo não se mede nos ponteiros de um relógio. Talvez isto queira dizer muito. Ou talvez não queira dizer rigorosamente nada.
Contrariamente a muitas opiniões, tenho um emprego absolutamente normal e, a minha vida, em nada difere de todas as outras vidas que se cruzam com a minha. Sou casado. Tenho um filho.
Já escrevi muito. Também já passei anos sem escrever uma linha. Cheguei mesmo a destruir uma quantidade bastante impressionante de textos como se precisasse de me limpar de tudo o que tinha escrito, apagar o passado.
Para mim, escrever é uma necessidade, mas não mais que comer, dormir, amar e ser amado. Muitas são as explicações possíveis para a escrita, algumas, plausíveis até. Eu escrevo porque sinto, penso, imagino histórias que me pedem palavras que as fixem numa forma definitiva. Quando escrevo, sinto-me mais completo, mais realizado, mais feliz. E esta parece-me explicação que baste.
A todos, o meu obrigado.
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