Atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores - APE - com o apoio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas - IPLB -, o Prémio Revelação de Literatura Infanto-Juvenil visa garantir a publicação de obras inéditas, no domínio da literatura infanto-juvenil. A APE distinguiu para o Prémio Revelação referente a 2004 na modalidade de Literatura para a Infância e a Juventude, o meu original 'A pedra com olhos'. Estes prémios, aos quais concorreram 49 autores, para escritores inéditos em livro na modalidade a que concorrem, são patrocinados pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB), garantindo a publicação, em colecção própria, através da editora DIFEL, e o pagamento dos direitos de autor. O júri foi constituído por José Correia Tavares (Presidente da APE) que presidiu, Margarida Fonseca Santos, Mário Cláudio e Silvina Rodrigues Lopes "A pedra com olhos", pequena história que escrevi para o meu filho, relata-nos o mundo em toda a sua textura e essência visto e sentido por uma pedra, uma pedra que indaga, que se interessa, que muito aprende e ensina no decurso da sua longa, longa vida de pedra. Dos vinte capítulos que compõem a história, apresento como excerto o primeiro. « Sou uma pedra. Sempre fui uma pedra. Não sei bem como tudo começou, não porque as pedras não tenham boa memória, porque têm, mas porque o princípio da vida de uma pedra é um pouco enevoado, algo que não é possível lembrar. Recordo apenas um ribeiro tranquilo, o gorgolejar da água fresca pela manhã, a passagem das nuvens, a sucessão das noites e dos dias, das estações do ano, nos seus chuviscos ou chuvadas no inverno, do calor nas tardes de verão, tão quentes e abafadas que até se pode ver o calor a sair de nós. Nessa altura, tudo à minha volta se cobria de erva verdinha, algumas árvores, aqui e ali, deitavam no chão as suas sombras, abrigavam cachos de pássaros que iam e vinham sempre apressados, chilreando muito ao entardecer, enchendo os troncos e abanando as folhas. Eu e as outras pedras vivíamos juntas na margem do ribeiro. Como não somos de grandes conversas, nunca me disseram porque ali vivíamos. Mas eu também nunca perguntei. Apenas estávamos ali e, agora já não perco tempo a pensar nisso, entendi que estávamos ali porque sim – e vivo bem com essa conclusão. Assim são as pedras. » |