Página principal
Livros
Destaques
Bio
Pesquisar
Contacto
 
Página principal arrow Livros arrow Contos de Verão

Contos de Verão
Contos de Verão 
 

O conto «de almas salgadas» procura transmitir a sensação de magia e a quase suspensão da descrença típicas do Verão. É uma época em que tudo é possível, tudo pode acontecer. De uma certa forma, as férias de Verão são sempre uma pausa nas certezas e rotinas da vida, um período de desordem, de possibilidades e mudanças.

Em si, a estrutura do conto é muito simples, poder-se-ia até considerar como uma banal história de amor. Contudo, o que me fascinou na escrita deste conto não foi tanto o fluxo dos acontecimentos mas antes o explorar das motivações, certezas e sonhos dos personagens, o confronto entre os seus desejos e as suas acções.


Excerto:

«À medida que o comboio me aproxima de casa afasta-me um pouco mais de ti. Palmo a palmo, metro a metro, é quase imperceptível mas vais-te afastando, até me perguntar se alguma vez chegaste a existir. Ainda é Verão. O calor corre-me a pele, os cabelos, enrola-se nos dedos, é um abraço indesejado e impossível de quebrar. Vou baloiçando os olhos entre o livro que tento ler e a paisagem que quase não consigo ver. Num lento desfilar de passagens de nível e apeadeiros perdidos num mundo desconhecido, acompanho o círculo do sol desde a madrugada nascida sobre rochas e mar, passando por planícies gastas e secas que se renderam depois em árvores espessas de vida e, finalmente, em paisagens escarpadas de progresso e civilidade, esse mundo incaracterístico do dia a dia.

Voltar a casa. Há uns dias atrás essa ideia parecia-me longínqua, quase absurda. Agora torna-se demasiado real, na verdade, assustadora. Quanto tempo foi? Não mais que mês e meio, contudo o tempo brinca com o nosso sentir, ora correndo, ora caminhando, tornando dias em minutos, e segundos numa vida inteira.

A saudade começou antes da viagem. Do mar, do sol, da promessa daquela pequena vila piscatória mas, acima de tudo, saudades tuas, ao mesmo tempo tão perto e tão longe. Fecho os olhos e sinto o sal da manhã, num vagaroso vai e vem de espuma. Os nossos pés nessa espuma e a água que nos acariciava e se esquecia nas nossas pegadas. Nesses momentos a eternidade foi nossa, nesses breves instantes, nesse universo inteiro que se fecha entre o rebentar de duas ondas. E quantas foram as manhãs que rasgámos nos nossos passeios junto ao mar? Duas, cem, mil? De certeza que é o meu sentir que me engana mas pergunto-me se não foram vários os dias em que apenas passeámos, desde a maresia matinal até ao manto nítido de estrelas com que nos cobríamos naquelas praias, rochas e esplanadas, num total abandono de horas, calendários ou marés.

Olho para ti, sentada à minha frente no comboio. És tu e já não és. Viras vagarosamente as páginas do teu livro, marcadas pelo ritmo secreto dos teus olhos e pelos solavancos ritmados do comboio. Gosto da forma como os teus dedos compridos e magros se entrelaçam nas páginas umas fracções de segundo antes de as virar. É o mesmo livro de sempre, o livro com que te conheci naquela esplanada sobre o mar, o livro que veio a acompanhar o isqueiro de que precisavas e a chama do teu olhar. Precisavas de lume e vieste ter comigo. Lembro-me perfeitamente. O teu olhar, as tuas palavras, o teu cheiro. Enfim, tudo.»


< Anterior