|
Nas histórias que seleccionei para este livro
encontro uma procura sistemática da verdade que vive em cada um de nós,
especialmente na impossibilidade de circunscrever esse segredo a uma
frase, a uma palavra concreta que encerre toda a essência de uma vida.
Encontro a solidão e a agressão do espaço exterior e uma mudez ainda
maior em não o conseguir conciliar com tudo o que somos, o que
sentimos, o que pensamos – dois mundos separados procurando
incessantemente os limites mútuos.
|
Excertos:
Sempre tu
Conduzo devagar para não te acordar. Gosto que assim
seja. Poderia até chamar-lhe um acto de amor se me atrevesse a falar do
amor como se fosse coisa de ser assim falada, transfigurada em
palavras. Atravessamos lentamente uma das estradas rasgadas na Serra de
Sintra que tanto aprecio e que tanto me dói. Seguimos sem motivo ou
destino em especial. Seguimos apenas por seguir, tal como existem
momentos que para serem completos requerem um cenário, uma condição, um
contexto que os segure num todo, um novelo de memórias.
Ao piano, temos a Maria João Pires. Não me lembro
quem interpreta mas fá-lo da forma suave e envolvente que só ela sabe.
A Maria João de sempre. A que gosta de lavar louça antes dos recitais
para sentir melhor a música escorrer-lhe nos dedos feitos corpo
inteiro. Deslizamos devagar, dois passageiros mudos na noite mais
escura. Mas não estamos sós na nossa solidão sonhada ou vivida. A
neblina desce a serra quase tão suave e discreta como a música. Esguia,
trepa verduras e arbustos, contorna troncos e pedras, acaricia musgos e
folhas secas, deita-se por fim na estrada entregando-se aos faróis como
se fosse ilusão, sonho em forma de farrapo.
Abismada no teu sono, nessa ausência só tua mesmo
que presente. Tu. Sinto uma comoção, uma quase euforia próxima da
felicidade. Imagino-te missão da minha vida, a razão única e final da
minha existência. Conduzir-te suavemente na noite, um guardião do teu
sono. Garantir assim que, dormindo a meu lado, o mundo se mantenha nos
eixos invisíveis de uma harmonia e equilíbrio sem explicação. Sempre me
atraíram as missões supremas, nunca me contentei com ninharias.
Paro numa reentrância da estrada para fumar um
cigarro. Naquele lugar ainda mais escuro que a noite. Naquele lugar
onde o meu amigo, quando descobriu que tudo é demasiado, se enforcou. E
a árvore ainda lá está como se o esperasse mais uma e outra vez, como
se nos esperasse a todos. Inteira, arrancada da treva. Diante dos
faróis torna-se medonha, aterradora.
Quando abro a janela perguntas-me, sem abrires os
olhos, se já chegámos. Não, ainda não. Depois perguntas se te amo.
Muito, meu amor. Amo-te muito. E o amor é isto. Nem mais nem menos que
isto. Ama-se ou não se ama. É tudo o que sei dizer sobre o amor porque
é tudo o que há para ser dito. Sorris. Dizes-me que, se não fosses tu,
seria uma outra qualquer. Nunca, meu amor. Sempre foste tu, serás
sempre tu. Sorris novamente e provavelmente adormeces, embalada na
certeza das palavras, na paz do piano.
Vejo o fumo perder-se na escuridão e penso. Penso
que há coisas que não se explicam porque não se podem explicar. O que
te disse resume tudo. Sempre te amei, muito antes de te conhecer.
Sempre soube que eras tu. E encontrei-te sob muitos nomes e figuras.
Atravessaste várias vezes a minha vida. Por vezes ficaste mais tempo.
Mesmo que mudes de identidade é em algo absolutamente louco e
indefinido que te encontro. Diria até que te conheço pela alma se
soubesse o que é a alma. É algo que te ultrapassa o nome, que te
transcende o corpo, é algo sem nome mas que reconheço nas pequenas
coisas que te fazem. Num olhar, na forma como mexes mãos e dedos, na
maneira como choras ou ris quando te emocionas. Sempre fui um homem
atento.
De cada vez que sais da minha vida, procuro-te com
empenho, determinação e rigor. Até voltar a encontrar-te. Sempre vivi
assim, à tua procura. Dizes que se não fosses tu, seria outra. Mas
enganas-te, meu amor. Sempre foste tu. E se saíres novamente da minha
vida, voltarei a encontrar-te. Talvez com outro nome. Talvez com um
outro passado e outros segredos. Talvez mais tarde do que mais cedo.
Mas serás o tu que está tão para além de ti. Serás sempre tu.
Demasiadas, as noites
São cinco da tarde. Em ponto. As badaladas do sino
marcam o momento, exacto, preciso, imperturbável. Ecoam no ar,
dando-lhe um corpo denso e abafado. Partes no mesmo silêncio com que
chegaste. Isto é uma despedida. Sei que não nos voltaremos a ver. Tudo
o que havia a dizer já foi dito. Gastámos todos os dias que nos foram
concedidos e muitos outros que fomos roubando aqui e ali, a um tempo
que por vezes se distrai mas que nunca se esquece. E foram muitos, os
nossos dias, demasiados até.
Também tivemos as noites. Uma vida inteira de
noites, até um ponto que nada mais houve senão a noite que só agora
termina. As noites em que, o telefone, me levantou da cama. É o Artur,
é a Anabela, é um amigo ou uma amiga. Essas vozes que nunca reconheci e
me arrancaram ao sono. Para te ir buscar onde quer que estivesses, como
estivesses. Foram demasiadas as noites em que já nem sequer conseguias
telefonar ou em que apenas dizias «não sei onde estou». As noites em
que te trazia ao colo para casa, em que te despia e lavava, não já a ti
mas aos destroços de quem uma vez foste. Choravas, pedias desculpa,
prometias que não voltaria a acontecer. «Juro pela tua saúde, acabou»,
dizias. «Jura pelo que tu quiseres, mas não por mim». Não, nunca
acabou. Ou acaba agora, às cinco da tarde deste dia cinzento.
Deste-te a quem te quisesse, e muita gente te rasgou
o corpo e cuspiu na alma. Deixaram ovos, casulos, larvas e raízes
dentro de ti. Deixaram-te essa tristeza infinita que te consumiu mais e
mais até não saberes o que era a vida, talvez por a teres aprendido bem
demais, talvez por quereres o mundo todo e nunca compreenderes que o
mundo é uma besta que a todos devora. Talvez por ambicionares demais
sem te aperceberes que apenas perdias o pouco que ainda tinhas.
Em todas essas noites encontrei-te por aí, em praias
distantes, pinhais, becos mortos e sarjetas imundas. Passei noites ao
volante, a correr tudo, a procurar-te. E levava-te ao colo, e lavava-te
quando já não tinhas coragem e eras um vómito de ti, acima de tudo, do
que querias alcançar, de tudo o que te fascinava de morte e no último
instante te apavorava. Mas nada disso importa. Agora já não importa.
São cinco da tarde em ponto. O sino da igreja é o
único som que se ouve. Cinco badaladas solitárias, a cortarem o
silêncio que nos separa cada vez mais. Sim, isto é uma despedida. Não
voltaremos a encontrar-nos. Deixaste que te esquartejassem a alma e com
ela esvaziaram todo o amor que em tempos houve na minha. Ainda não sei
o que sinto. Talvez porque não sinta nada, nada. Despeço-me na primeira
pazada da terra escura que te abraça o caixão. Não nos voltaremos a
encontrar. No eco da última badalada, no embate da terra contra a
madeira, viro-te as costas e entrego-te ao teu destino. Para sempre. |